MENINA LÚCIFER
Sou uma pequena partícula neste cosmo gigastenco, nisto que chamamos de planeta.
Sou "EU" todas as manhãs ao acordar, e simultâneamente, sou alguém diferente todos os dias.
Vivo numa batalha para descobrir quem é este "EU", se sou feita de essência, qual é a minha?
Me pergunto o que faço aqui, o que vim aqui fazer? Se tenho células e orgãos, se penso, sinto e falo; o que devo fazer com este EU-HUMANO e seus poderes?
Se foi a luz divina que escolheu que eu repousasse sobre esta terra, por que mora dentro de mim tanta escuridão?
Como posso despertar amor em alguém, se sou tão pequena, egoísta, uma verdadeira farça! Se pareço um teatro com várias peças, na qual uma mesma atriz interpreta várias personagens, como posso dizer quem sou eu? Como posso sentir a realidade, como posso tocar no mais profundo do meu ser se estou tão vazia.
Passei muito tempo brincando com a realidade, me perdi nos vários tropeços que causei a mim e a outras pessoas. Sou como o anjo caído, aqueles a quem chamaram de Lucifer. Um dia ele perdeu sua morada, seu paraíso e desde então, nunca mais saiu desta lacuna, apenas foi levando companheiros em sua jornada. Talvez, ele tenha se perdido também e tentando dizer quem ele era, viu apenas a escuridão, assim acreditou que esta seria a resposta. Como pode alguém almejar luz se encherga apenas trevas? Não importa se ele já esteve iluminado, não há mais luz, seu coração foi tomado pelos sentimentos frios.
Tudo em mim parece falso, e até mesmo quando estou triste nem sei o porquê. Se estou feliz sei que não é felicidade e sim, ilusão. Isso irá durar apenas algumas horas, até eu acordar deste sonho, porque sei que amanhã ou depois vou cair, tentando me achar, vou afundar novamente. E ai, volto aos meus pesadelos.
Seus braços sempre tão generosos estiveram o tempo todo a me esperar, enquanto eu despencava. Mesmo você tendo de olhar para as besteiras que eu fazia, suas mãos e braços estavam ali. Você segurou-me e alivio minha dor, você enxugou minhas lágrias geladas.
E agora vejo, que estou tão perdida e tenho medo de levar-te para o meu mundo sem cor. Não é que eu não queira lhe fazer feliz, é que eu não consigo isso, eu joguei fora aquela doce menina que você conheceu e é ela a quem tu amas, não eu.
É ruim morrer em vida, mas infelizmente, sobrou apenas os gostos daquela moça e umas poucas migalhas.
Tentando ser forte, tornei-me fria.
Querendo ser diferente, sou agora uma estranha.
Tentando ser imparcial, me tornei egoísta.
Querendo não me envolver, perdi a empatia.
Tentando ser dia de sol, transformei-me em neblina.
Penses bem, aqui eu estou, a rasgarte o meu podre ser. Não para que sintas pena de mim, muito menos para justificar qualquer erro. Apenas, para que tu vejas que já não sou quem eu era. E mesmo assim, gosto de ti por perto, porque me sinto em paz, ainda que seja por momentos.
Eu preciso voltar, me teletransportar, respirar em fim a vida.
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