Vivo passado
Disseram que mudou.
Ela não usa mais os cabelos cumpridos,
Largou o batom vermelho que costumava aparecer sexta à noite,
Deixou de lado algumas de suas doideiras.
Trocou o repertório das músicas,
Abandonou os lugares que sempre estavam em seu roteiro,
O cigarro que mantinha nos lábios nos dias ruins e também nos comemorativos,
Mudou de endereço, residência, de trabalho, de companhias, deixou até alguns defeitos oriundos da sua personalidade forte e impulsiva.
Precisou perder-se para se reencontrar diferente em algum outro lugar.
Sim, está sendo moldada e transformada!
Nunca parei para pensar o quanto eram pesadas as malas que esta jovem moça carregava.
Sempre cheia de sonhos, mas com muitas lágrimas guardadas.
O sorriso encondia um poço fundo de decepções e ilusões.
Algumas com ela mesma, outras tantas com as muitas pessoas que faziam parte da sua vida.
É que ela sempre foi dessas, dessas que criam expectativas, sabe né?
Quando se entregava era sem medo.
Era um megulho só!
Ela construi um muro de feridas. Uma após a outra.
Cada uma delas foi desconfigurando quem ela foi criada para ser.
Agora, consciente das coisas que viveu,
Busca o caminho de volta para dentro de si.
Para recuperar o que jamais poderia ter perdido: - Sua Identidade! Sim, quem de fato esta moça é.
As mais difíceis mudanças, não foram as externas.
O complicado é lidar e aprender com tudo que está em seu coração.
Memórias e sentimentos tão vivos, como no primeiro dia em que surgiram.
É assim que ela sente em muitos dias.
Como alguém que deseja se libertar de coisas que não sabe nem explicar o porquê permanecem ali.
Mas gritam! Gritam em seu coração!
Querem continuar vivas e latentes...
No entanto, essa moça vive uma nova vida.
Na qual, não vê encaixe de todas estas emoções. E mesmo não tendo como vivê-las, se sente prissioneira delas.
Como alguém que vê um filme passando de longe, mas ao invés de somente assistir, quer vivê-lo intensamente. Mas não é mais possível.
O passado ainda vivo.
Como quem escreveu em um quadro que não pode ser apagado.
Estranha sensação.
Estranho sentimento de estar vivendo o mesmo de todos os dias.
Uma falta impossível de sanar.
Larissa Lunelli 00:46 dia 20/10/19
